28.10.06

insustentável leveza insuficiente

Sim, já falaram na insustentável leveza, mas talvez tenham deixado de lado a insuficiência. De fato, cá estou eu: insuficiente. Não caibo em mim e transbordo pelas beiradas. Contamino e adoeço. Os anti-corpos vão pelo lado de fora. E quem, mais do que eu, é um anti-corpo? Do lado de dentro apenas desejo. Mas desejo de não-realização. Tenho plena consciência de que se tivesse meus desejos realizados seria extremamente infeliz. Não! Quero apenas a busca... Quero apenas a aposta. E se for pra escolher, prefiro perder. No entanto, em zonas de não-consciência, eu comemoro vitórias. E ela segue o rumo dela. Eu sigo o meu, com outras. Tudo isso falo comigo mesmo e me escondo atrás de meu ser plasmado. A todos os outros: “Oi, tudo bem? Como está? Eu tou bem.” Loucura momentânea. Estou bem. Amanhã estarei melhor. E... E... E o espírito de Deus pairava sobre a face das águas.

12.10.06

Da dignidade humana


À Tássia Camila


Depois de uma cansativa aula, dirigia-me com andar pesado por sobre as ruas repletas de pessoas. A movimentação era-me completamente indiferente e o único pensamento consciente que me perpassava era de que deveria chegar logo à casa de minha tia. Foi, então, que a visão de um senhor de classe média (alta, talvez) me chamou a atenção. Ele alimentava os pombos ostentando um doce olhar e uma alma leve. Aproximei-me curiosa. Demonstrando sua amabilidade também para com os seres humanos ele puxou assunto comigo: “a natureza é perfeita”. Disse adorar o arrulhar dos pombos e que adorava também os peixes, principalmente os de água salgada, que têm a liberdade de navegar pelos mares. Deleitava-me com a conversa. Não percebi terem se passado dez minutos. A praça continuava sua vida normal, com seus vendedores de pipoca e picolé, crianças a brincar, adultos apressados se dirigindo de um ponto qualquer a outro, também, qualquer – e que só não faziam o trajeto em linha reta porque árvores incômodas lhes atravessavam o caminho - e um varredor trabalhando para a limpeza do que outros novamente sujarão. Daí apareceu outra figura citadina – bastante incômoda à sensibilidade burguesa: um mendigo. Ele se aproximou do senhor dos pombos e pediu um cadinho do milho para si – peripécias da fome. O tão amável senhor mudou tão imediatamente a fisionomia a ponto de me surpreender. De cara emburrada tirou um punhado de milho e doou sem olhar o traste inumano que ousava ter fome e incomodar aqueles que não a sentem. Como que pressentindo um grave perigo ou, talvez, devido ao imenso asco, o senhor dos pombos me puxou para longe a fim de me colocar em uma segura distância daquilo que a nossa sociedade civilizada repugna. Ele nem sequer se virou uma vez mais para ver o mendigo. Mas eu, como sempre curiosa e meio atônita, o fiz. Surpreendi-me com a visão do mendigo sentado em um banco da praça, sereno, a alimentar os pombos.

4.10.06

Breve conto sob influência de Dostoiévski

Um dia qualquer. Ele, que não lembra de seus sonhos em sono, acorda com todos os sonhos do mundo, como diz o Pessoa. Sente-se malditamente bem ao pôr os pés no chão, após alguns momentos silentes sentado na cama, com os cabelos desgrenhados e os olhos semi-cerrados. Pensava no que faria durante o dia, pois tinha a mania de planejar as suas ações cotidianas (aquelas que ele faria mesmo sem planejar, como um autômato que talvez fosse). Enumerava mentalmente: urinar; lavar o rosto; estralar os dedos; tomar café; sentar no sofá; ligar a tv etc. Valorizava demais as ações mais banais da vida diária e chegou a formular um sistema filosófico inconsciente para justificar seu fracasso sempre que pensava em fazer algo que desviasse do rumo da banalidade e do vazio. Como no dia em que planejou convidar uma garota para sair. Já vinha reparando nela há algum tempo e lhe chamava a atenção a inteligência aliada à beleza. Mas nunca soube como abordar uma garota: tomado por um romantismo anacrônico nunca foi capaz de entender como os rapazes de sua idade abordavam garotas de forma tão direta, descompromissada e, pior de tudo, vulgar e, ainda assim, alcançavam seu objetivo. Sua abordagem honrosa sempre lhe rendeu terríveis e dolorosos fracassos. Enquanto conversava com uma garota sobre as coisas belas da vida, um terceiro pedia o telefone e dizia sem rodeios que a telefonaria à noite para saírem juntos. A garota, após este intervalo de esquecimento dele, voltava-se para ele com um olhar compreensivo, como quem caritativamente escuta o que tem a falar, mas não consegue esconder o anseio de retirar-se dali. Mas insistia na tática, pensando consigo mesmo que um dia encontraria a garota que cairia a seus pés devido a sua forma de abordá-la. E esta, pensava, será a verdadeira merecedora de toda a minha paixão. Julgava que desta vez não haveria erro. A garota em questão seria conquistada. Acordou com esse intuito e levaria tudo às últimas conseqüências. Passou o dia a pensar em cada frase, em cada palavra, em cada gesto a dirigir a ela. À noite, no último dia de aula, sentou-se ao lado dela. Conversaram bastante sobre diversos assuntos sobre os quais a manada nunca compreenderia. E, de fato, rostos perturbados e perplexos encaravam os dois a conversar, como a questionar como duas pessoas poderiam passar a aula inteira sem prestar a mínima atenção ao professor e, ainda por cima, para conversar sobre assuntos como aqueles. Mas nada atrapalhava a fluência do colóquio. A empatia era total. Era chegada a hora decisiva, o momento pelo qual esperou ansiosamente, o instante de pôr em prática aquilo que havia minuciosamente treinado. Mas um calafrio o perpassou subitamente. Pensou ter encontrado a garota dos sonhos e temeu jogar tudo por água abaixo em uma cartada arriscada e, quem sabe, precipitada. Resignou-se e, por um momento, o silêncio pairou sobre os dois. Ela puxou algum assunto. Ele, atordoado, pediu para que ela repetisse, pois não fora capaz sequer de escutá-la. A conversa voltou a fluir por uns instantes. Alguns minutos e ambos se despediram, cada qual tomando uma direção. Hoje se vêem esporadicamente e se tratam de maneira fria. Mas naquela noite ela não conseguiu dormir antes da alta madrugada, pois seu pensamento estava fixo no rapaz doce e poético que, no entanto, não tinha interesse nela. Lamentou-se pelo seu azar e convenceu-se de que seu destino era arranjar-se com algum rapaz da manada, grosseiro e maquinal. Ele, por sua vez, pensou ter feito a coisa certa ao nada fazer, pois havia se convencido de que seu destino era a solidão e que seu sistema filosófico inconsciente estava correto: tudo o que se distancia da banalidade e do vazio estão irremediavelmente fadados ao fracasso.

22.9.06

Quando é melhor calar-se

É difícil falar de algo quando não se tem nada a falar. No entanto há que se falar. Vivemos em um tempo em que falar, seja o que for, é imperativo. O silêncio incomoda. O silêncio não entretém. O silêncio é instante que alimenta a introspecção; que nos causa vergonha de olhar o outro e, por isso, nos faz olhar a nós mesmos. Mas o que temos para ver em nós mesmos? Verdade que nos identificamos enquanto eu a partir da visão do não-eu, ou seja, do outro. Mas é no momento de introspecção que esse eu formado em relação se identifica a si mesmo. Mas esse momento de introspecção nos é hoje doloroso. Quando estamos a sós no mais absoluto silêncio tratamos logo de ligar a televisão ou o aparelho de som em vista de abafarmos a nossa “essência” que poderia aflorar a qualquer momento. Inventamos algum barulho para nos levar para longe de nosso ser inconsciente. Passamos, dessa forma, a conformarmos nossas identidades a partir do que fazemos: daquilo que somos especialistas no mundo do trabalho; daquilo que ouvimos ou dos gêneros de filmes que assistimos; daquilo de que preferimos nos alimentar; daqueles com os quais preferimos manter relações sexuais etc. No entanto, nossa maior riqueza não está naquilo que fazemos, mas naquilo que sonhamos, mas que os constrangimentos naturais da vida em sociedade não nos permitem realizar na íntegra e que são agravados por um modo de vida social que nos faz sentirmos envergonhados de estarmos a sós consigo mesmos. Os momentos de absoluto silêncio e de solidão mortal já não são mais encarados como momento de apreender a si mesmo em seu íntimo, como na era pré-tv, ou melhor, na época em que a ênfase social se dava mais na produção do que no consumo. Na época do consumismo do entretenimento, o silêncio é abafado por um produto qualquer. Daí que o silêncio não seja mais tolerado nas relações sociais e que cause mal-estar quando as pessoas estão interagindo. Perdemos a capacidade contemplativa. Nos tornamos seres ávidos de consumir uma palhaçada qualquer, contanto que ela nos entretenha, nos tome o nosso tempo livre, nos livre do pesadelo de nossa própria liberdade. E, no entanto, valorizamos a nossa liberdade de poder sintonizar a Piatã FM ou a Itaparica FM. Eu, do meu lado, vou me calando por aqui...

(postado originalmente aqui)

17.9.06

Máscaras

Todos precisam de máscaras

E é por precisar delas que as amam

E a isso chamam covardemente de EU

Enquanto isso o EU dorme profundamente

Alheio a toda a realidade

9.9.06

A vida desperdiçada

A vida desperdiça-se durante o sono
No entanto quereria eu dormir a vida inteira...

Tragam-me uma dose de café quente
Pois já não quero mais dormir
Quero antes resistir bravamente ao sono até quedar-me sobre o chão
Onde jazem todos os sonhos

Oh, sono de vida!
Vontade imensa de Ser que transubstancia-se no absoluto não-Ser
Quereria eu dormir
Mas já não é mais possível...

Resta-me, acordado, sentir todas as dores do mundo
E nelas encontrar prazer
Com a leve esperança de que um dia o sono virá
Pois sempre vem...
Irremediavelmente vem...
Sempre dormimos como um bebê ao fim da nossa jornada existencial

3.9.06

Da doença social

Estudando Foucault encontramos uma modernidade na qual o Sujeito emergiu. As cadeias do Ancién Régime foram quebradas e o indivíduo pôde, enfim, viver o seu Ser verdadeiro. É verdade que este autor também tratou longamente das novas formas que a modernidade encontrou para efetivar o controle social, mas este seria um controle diferenciado, onde o indivíduo mantém parte de sua autonomia. Baboseiras como essa também foram compartilhadas por pessoas de bem, como o Sartre. Para este, a liberdade de escolha do indivíduo seria total. Todo o Ser seria responsabilidade do próprio Ser, pouco importando os constrangimentos externos à ação, pois, para Sartre, “não importa o que fazem de mim, mas o que eu faço do que fizeram de mim”.

Lendo Baudrillard, no entanto, vemos o outro lado da moeda. Em seu livro Esquecer Foucault este autor desconstrói a ilusão da autonomia e do surgimento do indivíduo, afirmando que a modernidade não foi marcada pelo surgimento deste, mas apenas pelo surgimento da ilusão deste. A autonomia individual propalada pelos grandes teóricos clássicos do liberalismo seria apenas parte da legitimação ideológica de uma configuração social marcada pela dominação da maioria pela minoria e pela homogeneidade da experiência existencial. As diversas formas possíveis de levar a própria vida não decorrem da criação e da autenticidade do ser e estar no mundo, mas apenas da liberdade de escolher dentre as formas disponíveis de experiência. Mais ou menos similar ao que acontece em um supermercado: os carrinhos das diferentes pessoas estão cheios de diferentes mercadorias, mas estas, por sua vez, foram disponibilizadas antecipadamente. Como são diversas as possibilidades combinatórias dentre as mercadorias possíveis, cada carrinho terá uma composição diferente. A isso chamamos autenticidade individual! No plano social, as combinações são inúmeras e podemos sobrepor diversas identidades toleradas pelo sistema para conformarmos a nossa individualidade. Exemplo: estudar administração na UCSal; ouvir música clássica; ler Dostoievski, Paulo Coelho e revista Contigo; beber e fumar; ser católico não-praticante, mas freqüentar o espiritismo; ir para a Choppada de Medicina da UFBA e Tom Zé na Concha etc. Outro exemplo: estudar administração na UCSal; ouvir axé e MPB; ler Paulo Coelho e revista Contigo; beber; ser católico praticante; ir para a Choppada de Medicina da UFBA e detestar Tom Zé. Tudo dentro dos limites dos modelos de Ser oferecidos pelo mercado da existência. Algumas vezes pode ocorrer das individualidades conformadas se tornarem demasiado distantes uma da outra e isso acarretar na impossibilidade do diálogo. Por exemplo, uma pessoa da tribo punk e outra da tribo do arrocha. Mas esta diferenciação brutal é tão brutal quanto um carrinho de supermercado com laranjas e bananas e outro com sabão em pó e água sanitária. Como se diz, não se pode comparar cachorro com banana.

Assim, vamos glorificando o capitalismo e a modernidade por nos permitir sermos nós mesmos (sic). E o que eram as pessoas sob o Feudalismo? As pessoas sempre são elas mesmas, respeitados os limites da estrutura social da época. Contudo, apesar da visão catastrofista apresentada no parágrafo anterior, acredito que as configurações sociais podem ser modificadas historicamente, como efetivamente o são, sempre de maneira inconsciente e não-linear. Também acredito que o Sujeito exista, com seus sonhos e sofrimentos. Então, este sujeito colonizado (como todo ser humano dentro de uma ordem social), diante da possibilidade da mudança social, pode ser um dos diversos agentes de transformação do seu círculo existencial e até mesmo da estrutura social. A transformação, contudo, nunca será a objetivação de sua vontade, mas a síntese oriunda das lutas travadas em prol dos mais variados projetos sócio-históricos e existenciais. Por não ser linear, a mudança também pode ser para uma configuração ainda mais opressora e castrante. De fato, ao longo do capitalismo, é possível verificarmos diversos momentos em que o nível de liberdade foi mais estendido. Hoje, contudo, verificamos uma subordinação de todas as lógicas sociais à lógica do mercado. Se o movimento histórico continuar nesta direção, dentro em breve poderemos nos referir à civilização ocidental como sociedade simples, em vista de seu alto nível de homogeneidade (onde a individualidade se restringe ao tipo de consumo adotado) e consciência coletiva (consumista). Em outros tempos (olha a nostalgia), pelo menos os campos da arte, da educação e produção de sentimentos e pulsões ainda não estavam colonizados pelo mercado. E se o indivíduo nunca será livre como pensava Sartre, pelo menos havia certos espaços restritos para o exercício da liberdade vigiada. Hoje há o consumo espetacular. É esta a doença social: caminhamos alegremente à homogeneização mais brutal acreditando estarmos realizando um projeto individual, quando estamos apenas recusando a possibilidade de executarmos projetos diferentes dentro da mesma sociedade, uma vez que o único projeto hoje é o do consumo. Talvez a liberdade sartreana tenha escolhido a não-liberdade. Resta-nos viver a doença e esperar que a cura algum dia esteja à venda nas farmácias...

1.9.06

Palavras do eterno agora (título meu)

qualquer coisa dita agora é silêncio.
qualquer desabafo agora é grito.
qualquer amor agora é saudade.
qualquer abraço agora é consolo.
qualquer choro agora é vão.
qualquer certeza agora é sonho.
qualquer foto agora é passado.
qualquer presença agora é ausência.
qualquer segredo agora é nosso.


Emanuelle Maia
(grande amiga minha)

26.8.06

Pela repolitização da política

Do Folha de São Paulo (25/08/06): “Em palestra, Marilena Chauí defende veia conflituosa da democracia”. E o texto do diário continua: “A filósofa Marilena Chauí defendeu anteontem, no Rio, durante sua participação no ciclo de debates ‘O Esquecimento da Política’, que democracia, mais que respeito às leis estabelecidas, é conflito. ’A democracia é a sociedade aberta ao tempo, ao possível, ao novo. Não está fixada numa forma para sempre determinada’, disse Chauí durante sua palestra. ‘Podemos afirmar que a democracia é a única forma da política que considera o conflito legítimo’. O argumento que o filósofo Baruch de Espinosa (1632-1677) usou para afirmar a superioridade da democracia sobre qualquer outro regime se contrapunha à definição liberal da experiência democrática. Para os liberais, disse Chauí, a democracia ‘é o regime da lei e da ordem para a garantia das liberdades individuais’, o que redundaria na tentativa de conter os conflitos sociais. Para Espinosa, afirmou Chauí, só a democracia permite aos indivíduos a afirmação de suas virtudes, sem medo”.

Atualmente, vivemos, contudo, numa época em que a política se despolitiza, tornando-se espetáculo. O show político - oriundo das propagandas midiáticas, das pesquisas de opinião e do marketing político – cria uma convergência entre opostos no campo ideológico. Os programas políticos tornam-se equivalentes e todos, sem exceção, são submetidos à lógica da política da nulidade, onde é proibido defender qualquer projeto, mesmo no âmbito democrático, que tenha como foco a mudança. O horário eleitoral é prova da convergência política da nulidade total: candidatos sorrindo, assemelhando-se ao Exterminador do Futuro, beijando crianças e fazendo os mesmos discursos preparados pelos marketeiros. As diferenças passam a ser mínimas entre os partidos e projetos políticos: a esquerda e a direita estão submetidas à despolitização da política, uma vez que ambas já se submeteram totalmente ao capital. E não proponho aqui uma revolta de tipo marxista-leninista contra o capital; apenas a recuperação da política de sua capacidade de intervenção na realidade de forma mais soberana. Na era dos extremos, o século XX, era a política quem definia as diretrizes sociais. Se o século XX nos trouxe experiências amargas, contudo nos mostrou que podemos construir a civilidade: cidadãos discutindo e construindo seus rumos. Com todos os conflitos aí envolvidos. Precisamos recuperar esta dimensão do conflito democrático como forma de repolitizar a política. Como? Não sei. A realidade nos induz a uma perspectiva atroz. Mas mantenho minha opinião, na falta do que fazer. Chega por hoje. Vou jogar dominó.

Ah. Lembrei de uma frase interessante, do Nicolau Maquiavel: “O mundo da política não leva aos céus, mas sua ausência é o pior dos infernos”.

24.8.06

Falando de amor

Me perguntaram porque não falo de amor em meu blog extemporâneo.

Talvez a razão seja que o amor, mesmo o eterno, é sempre algo fugaz e efêmero, o que o tornaria assunto do outro blog.

Mas mais do que isso, tenho tido tantas coisas em que pensar ultimamente que esqueci de pensar a respeito do amor. Esqueci, inclusive, de amar. (Com exceção dos meus livros e da cocada de abacaxi que trouxeram aqui em casa.)

O amor é um sentimento belíssimo. Admito.

Quando tiver mais tempo amarei um pouco mais. Prometo.

Ademais, amor é sempre uma opção de algo a se fazer quando se estiver entediado.

Falarei mais a respeito. Em ambos os blogs.

21.8.06

Cause and effect


the best often die by their own hand
just to get away,
and those left behind
can never quite understand
why anybody
would ever want to
get away
from
them


Charles Bukowski

19.8.06

Conversa sobre dores e cavalo no elevador...

Passei as últimas quarenta e oito horas curtindo minha decadência física. Para acompanhar as dores de cabeça, a ânsia ininterrupta de vômito, a febre e as dores estomacais, tratei de colocar alguns pensamentos pessimistas na cabeça e mais um pouco de Pink Floyd na cabeceira da cama. Para completar o quadro animador, é sábado à tarde e estou só.

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O cavalo entra no elevador e eu não acredito que ele poderia caber em tão apertado recinto. Mas o maldito tinha seus truques: transformou-se em uma batida tábua de passar roupa e escorou-se num canto. Tratei de alisar suas costas tabuadas. E saltei do elevador em direção à minha casa pensando que algo estranho havia acontecido.

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Talvez a existência seja dura demais. A vida devia vir em gotas. E de éter.

11.8.06

Por que o sapo não lava o pé?

Platão: O sapo que vemos é nada além da corruptela do sapo ideal, que a alma conheceu antes da Queda. O sapo ideal lava seus pés eternos com esponjas imutáveis, num mundo sem movimento. O sapo imperfeito, porém, jamais lava os pés.
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Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte. Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.
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Diógenes, o Cínico: Foda-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.
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Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?
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Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.
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Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.
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Estóicos: O sapo deve lavar seu pé segundo as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.
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Descartes:
Nada distinguo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.
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Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E, ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.
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Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de que atuar segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.
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Hegel: Podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.
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Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.
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Engels: Isso mesmo.
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Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.
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Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.
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Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: O mundo como vontade e representação.
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Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.
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Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.
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Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.
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Jung:
O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.
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Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.
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Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.
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Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!



(TEXTO NÃO-MEU)

10.8.06

Nietzsche está morto...

Vejam um grande vídeo.

O rapaz, a desgraça e o belo

O rapaz sai do prédio do consultório médico com a certeza de que está tão doente quanto a humanidade inteira. A decadência física do recinto e das redondezas, que chega a lembrar um cenário de guerra, apenas comprova o câncer que domina a sociedade civilizada! Ele caminha, cabisbaixo e taciturno, pensando na injustiça que parece ser inerente à existência. Imagens em preto e branco lhe vêm à cabeça, alternando com seu caminhar pesado: garotos de rua em frente ao shopping Iguatemi; Justiça Federal opulenta e favela no CAB; mendigo em frente à majestosa Igreja Universal; presídio em rebelião; hospital geral infestado de semi-mortos; ônibus lotado no rush; outras tantas e tão inefáveis imagens em flash inconsciente que aqui não poderiam ser descritas.

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Em sua caminhada em direção ao nada – que poderia ser rumo ao precipício, sem que isso fizesse diferença alguma – ele encontrou um objeto jogado ao chão. Na ânsia de ver do que se tratava e esperançoso de que a sorte lhe estivesse sorrindo, ele apanha o embrulho velho. Desenrola apressadamente e resfolega: era apenas um livro velho e idiota!, pensou. Joga-o com gosto ao chão. O livro cai aberto. Com remorsos de sua atitude agressiva, apanha o livro para deixá-lo no mesmo local no qual o encontrou, pensando que o dono poderia vir procurá-lo. Meio sem querer, vê que a página aberta traz um poema, ao qual lhe dirige um breve olhar e lê:

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Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

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Perante a beleza dos versos, estagna. Lê mais um pouco:

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O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

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Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

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Sente-se inacreditavelmente bem e debruça-se sobre o livro:

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Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

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A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

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Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

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Acaba por pensar que o achado era, enfim, um bom presente. Reconfortado, busca o ar fresco da orla marítima e vê, para além das desgraças da humanidade, um mundo cheio de vida e cores: um pássaro que passa por sobre a cabeça; surfista gozando a possível liberdade ao mar; uma moça bonita que passa e lhe dá atenção; estudantes que brincam uns com os outros sem preocupações outras que não o divertir-se e esquivar-se das jocosidades dos demais... Imagens que o levam a crer que ainda há beleza no cotidiano e esperança no horizonte.

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Sim, ele está doente e o mundo inteiro também. Mas há sempre um pássaro a passar altivo por sobre a cabeça.

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PS. Poema de Carlos Drummond de Andrade, chamado Consolo na praia.

9.8.06

Sociedade de Massa

O que explicaria o fenômeno da sociedade de massa, se entendermos por tal uma configuração social que sublima os indivíduos em um bloco inefável e amorfo colonizado pelo fetichismo extremo do mercado, da mercadoria e do consumo? Como alguém pode pertencer à essa massa?

Talvez a resposta esteja em um índice a que chamarei nível de demanda explicativa. Se os indivíduos são socializados para se identificarem com o sistema do consumismo passivo, suas atividades cotidianas mais banais – no trabalho (produção) e no tempo livre (consumo) – passam a ser seu universo de significado. Nada além dessa díade fará sentido. Tudo o mais será considerado supérfluo. Conhecimento crítico, arte, cultura, poesia, tudo soará como retrógrado e anacrônico – algo que foi mas não é mais. O que interessa é trabalhar no mundo da produção e depois consumir o que outros produziram em seus mundos da produção. O nível de demanda explicativa da realidade é reduzido a um grau baixíssimo e tudo o que aparentar ser “complexo” é transportado para o além-do-mundo, para o sobrenatural, o que explica a explosão das religiões de mercado. O ser-da-massa vive seu cotidiano adestrado de trabalho-consumo e quando sua natureza humana lhe leva à questionar ele remete tudo ao divino. Pronto, a realidade, para o ser-da-massa, está, assim, esgotada. Tudo está como é e como tem que ser. Vamos ao shopping center.

Numa sociedade que um dia almejou a emancipação, um pouco de luz pode estar no aumento do índice de demanda explicativa da realidade. Para tanto, faz-se mister seres críticos que não se isolem da massa e, num esforço descomunal, engaje-se no projeto de desnaturalizar o natural. Nada de oferecer respostas, mas questões.

25.7.06

A vida como ela seria, mas não é


“Nos perguntam: a vida privada está privada de que? Muito simples: da vida, que está cruelmente ausente. Estamos privados de comunicação e da realização de si mesmos até os limites do possível. Dever-se-ia dizer: privados de fazermos pessoalmente a própria história.”

Guy Debord em Perspectivas da transformação consciente da vida cotidiana

Esse trecho do texto de Debord me levou à alguns devaneios filosófico-sociológicos acerca da identidade (o velho quem-sou-eu-onde-estou). De fato, como pode a vida estar privada da vida? O equívoco pode estar na perspectiva adotada, pois se pensarmos que as coisas são o que são e não aquilo que gostaríamos que fosse, a não-vida denunciada por Debord tornaria-se facilmente o tipo mais banal de vida real.

Daí podemos transpor o modelo para a identidade do indivíduo. Vejam este trecho de um soneto de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa):

“Nem nunca, propriamente reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.”

A sociedade ocidental, fortemente lastreada na idéia de indivíduo, sempre foi acometida por questionamentos acerca do Ser. Ante a forte pressão para se adaptar aos modelos comportamentais da sociedade, bem como à sua visão de mundo (moral, estética, ideológica etc) e ao mundo do trabalho, o indivíduo, então, entra em uma espécie de crise existencial permanente e latente: será que sou-me? Ou sou apenas o que os outros querem que eu seja? Ou ainda: sou apenas aquilo que, em minha mediocridade, consegui ser?

A questão é: se você é o que os outros querem que você seja, então, não é exatamente isto que você é? Ou haveria algum “eu” escondido numa caverna platônica esperando vir à tona? Não acredito na segunda hipótese. O contato humano nos corrompe, no sentido de que, ao interagirmos, já somos uma síntese entre sonhos e vontades e aquilo que o realismo cotidiano nos permite concretizar. O sonho não é destruído, mas apenas confrontado com a realidade. E somos tanto idéia quanto aquilo que efetivamos. Nesse sentido, a vida verdadeira à qual Debord se referia é a vida que, para ele, seria a mais desejável. A vida a qual ele chamou de não-vida é tão vida quanto, mas apenas confrontada com o deserto do real. Assim também em relação à crise enfrentada por Álvaro de Campos. Ele poderia até não querer sentir o que sente, mas que sente não há dúvidas. Somos o nosso cotidiano, os sonhos frustrados, somos não apenas o que somos mas também aquilo que queríamos ter sido mas não fomos! E quanto queremos ainda ser mas temos plena consciência de que nunca seremos... E a isso chamemos vida!

24.7.06

Um pouco do pensador marginal Guy Debord



A crise atual da vida quotidiana se inscreve nas novas formas de crises do capitalismo, formas que passam desapercebidas por quem se obstina em calcular em função do vencimento clássico das próximas crises cíclicas da economia.

A desaparição de todos os antigos valores, de todas as referências da comunicação anterior ao capitalismo desenvolvido, e a impossibilidade de substituí-los por outros, quaisquer que sejam, sem conseguir previamente o domínio racional, tanto na vida quotidiana como em qualquer outro lugar, das novas forças industriais que cada vez mais escapam mais a nosso controle; estes fatos não só engendram a insatisfação quase oficial de nossa época, insatisfação particularmente aguda na juventude, mas ainda mais no movimento de auto-negação da arte. A atividade artística sempre foi a única que prestou contas dos problemas clandestinos da vida quotidiana, mas de uma maneira oculta, deformada, parcialmente ilusória. Diante de nossos olhos, já existe o testemunho de uma destruição de toda expressão artística: é a arte moderna.

Se consideramos em toda sua extensão a crise da sociedade contemporânea, não parece que o tempo de ócio pode ser considerado ainda como uma negação do quotidiano. Admitiu-se aqui a necessidade de "estudar o tempo perdido". Mas vejamos o movimento recente dessa idéia de tempo perdido. Para o capitalismo clássico, o tempo perdido é o tempo exterior à produção, à acumulação e à economia. A moral laica que se ensina nas escolas da burguesia implantou essa norma de vida. Entretanto por um ardil inesperado, o capitalismo moderno necessita acrescentar o consumo, "elevar o nível de vida" (tendo em mente que esta expressão carece rigorosamente de sentido). E dado que, ao mesmo tempo, as condições de produção, compartimentada e cronometrada até um grau extremo, se tornaram completamente insustentáveis, a moral que já abriu passagem na publicidade, na propaganda e em formas do espetáculo dominante, admite francamente que o tempo perdido é o tempo de trabalho, que já unicamente se justifica pelos diversos graus de lucro que procura, o qual permite comprar o repouso, o consumo, o tempo de ócio - ou seja, uma passividade quotidiana fabricada e controlada pelo capitalismo.

Nos perguntam: a vida privada está privada de que? Muito simples: da vida, que está cruelmente ausente. Estamos privados de comunicação e da realização de si mesmos até os limites do possível. Dever-se-ia dizer: privados de fazermos pessoalmente a própria história.


Guy Debord
Trechos de "Perspectivas da transformação consciente da vida cotidiana"

18.7.06

Sintomas de solidão e bem-estar

Estando só sinto-me mal

Porém, estando só sinto-me bem

Pois efetivamente sinto-me

E sento, sentindo-me

Sem sentir, sentado

17.7.06

O bicho - E o mendigo?

Tratamos de épocas históricas e de como homens-bichificados podem rebelar-se. Mas voltemos à temática do mendigo. Como ele pode rebelar-se? Ou seria mais pertinente a questão: quer, ele, rebelar-se? Sim, pois, de fato, o ato da rebeldia é sempre um luxo, ao qual um mendigo (e falo em mendigo enquanto arquétipo do não-vivo debordiano) não pode ceder. Antes do luxo vem a sobrevivência. Nesse sentido, a bichificação é uma arma inconsciente para a manutenção da vida. Em termos dos seres que podem se dar ao luxo da rebeldia, contudo, a bichificação é alienação de si mesmo, no sentido de remeter à outros (e esse outro poder ser as redes de poder e dominação da sociedade) a gerência da própria vida. Em um momento de hegemonia do princípio de mercado sobrepujando todas as demais sociabilidades, a forma mercadoria é fetichizada ao extremo e surge a sociedade do espetáculo (Debord) ou a economia política do Signo (Baudrillard). Nesse caso, a bichificação é não-vida. A sociedade passa a ter a liberdade (hedonismo, consumismo etc) enquanto princípio e a dominação (monopólios de mercado, indústria cultural etc) como regra. Enquanto isso, o mendigo mendiga.